quinta-feira, 31 de julho de 2008

Os espiadores

Os dias em que você está mais quieta são, definitivamente, uma lição de vida.
A mim, basta uma noite mal dormida para um dia de quietude, moleza, poucas palavras e intensa observação.
Dessa vez foi Ela quem me atentou para o detalhe.
"Hoje parece que está todo mundo espiando alguma coisa, que estranho!" (sutil, mas fabulosa, sempre).

Por todos os lados eu via as cabeças.
Para lá, para cá, em frente, esticada, escondida, curiosa, preocupada, atenta....
Milhões de maneiras.
Como é curioso! Se deixassemos de prestar atenção aos sons da cidade e das pessoas que a enfeitam repararíamos um pouco mais nas pequenas atitudes de cada um.
Hoje meu dia passou no mute, e eu reparei em nossos espiadores.
Por toda parte que meu banco de passageiro passava eu reparava em alguém espiando algo.
Espiando de um lado para o outro pra atravessar a rua, ou olhar o trânsito.
Espiando pela porta da loja e pela janela de casa para ver o movimento da rua.
Pelo vidro dos carros para olhar os transeuntes.
A esmo para acelerar a espera de algo.
Espiando a luz bicolor da polícia que estava na rua tumultuando algum estabelecimento comercial e bloqueando a passagem.
O céu, pra analisar o tempo e prever a meteorologia dos próximos dias, ou ainda pedir alguma chuva pro ar seco parar de castigar nossas narinas.
Espiando o caminhar das pessoas, em seu passo lento, apressado, torto, incerto, vacilante, calculado...
Espiando as aparências em sua beleza ou não.
Espiando pela vitrine pra captar qualquer coisa que possa aumentar a fatura do cartão de crédito.

Andando por aquelas ruas elas me pareceram corredores para onde davam as janelas de todos os espiadores.
E como são numerosos.
Se pararmos para pensar, acho que não há movimento da cidade que alguém não capte com o olhar.
Nada escapa aos espiadores.
Esteja certo de que ao menos um deles lhe viu. Seguiu seus passos, vasculhou sua sacola de compras, analisou sua comissão de frente (ou sua retaguarda), cobiçou seu namorado, comentou sobre a poeira no seu carro (quando não escreveu 'lave-me, por favor' no seu vidro traseiro), discutiu seu bom gosto, elogiou seu sorriso, acompanhou seu abaixar para pegar o que caiu no chão...
Qualquer coisa, e todas as coisas, estão sendo vistas pelos espiadores. Eles nunca lhe deixam passar em branco.
E é triste, e intrigante, saber quantas pessoas se interessaram pela sua vida por alguns segundos e você nem tem a oportunidade de conhecê-las minimamente.
Quantos desses espiadores passam do outro lado da calçada da sua vida e você não tem a chance de uma mínima troca de olhares.
E ainda assim, nossos momentos são totalmente preenchidos pelos espiadores que estão na nossa calçada da vida. Por alguns menos, por outros mais. Mas os que estão na sua calçada sempre lhe completam um pouco, lhe ensinam...e lhe espiam, como de costume.

Um comentário:

Paula Bastos disse...

E eu aqui, espiando pra saber se está tudo bem com vc!
Tô no seu cafofinhooooooo!!!
Que saudadeeeeeeeee!
E tem novidade no meu blog sim. É que agora vou ter menos tempo pra filosofar, mas sempre que me vier algo em mente, eu escrevo!!!
Beijooo